Até que um dia....um belo dia estava eu saindo do banho e meu pai passou quando eu estava aplicando a pomada na bendita, foi aquele drama da minha mãe (eles nunca gostaram de tatuagens), e eu vendo tudo aquilo sem saber como me defender e me explicar (não tinha como) achei que o meu pai seria a pior parte, e para minha surpresa, jamais poderei esquecer a resposta sábia que ele deu a minha mãe ao ser questionado porque não falava nada ao ver sua filha de 15 anos com aquele "monstro" nas costas, ele apenas disse: todos têm o direito de se arrepender”. Aquilo pra mim foi pior que um tapa na cara da minha mãe, que nos criava de uma forma protetora de tudo e de todos, nunca poderíamos correr riscos.
Isso aconteceu já faz um bom tempo, apesar de eu ter ironicamente me arrependido por ter hoje essa "borboleta enorme nas costas", ainda recuso-me a contentar com a sensação da dúvida diante daquilo que eu poderia ter feito e por medo deixei de fazer. Eu não aceito mais engolir meus desejos e viver sob a falsa blindagem das utopias, insuportáveis para quem não vê paudurescência nenhuma em começar uma frase com: “Se eu tivesse dito a ela…” ou “Talvez tivesse dado certo se eu…”.
O mundo está inundado de sonhadores, pessoas que vão até o Karaokê e embriagados cantam Imagine como se assim pudessem telepaticamente dar nós em todos os fuzis da guerra. Está cheios de mulheres que dizem querer achar o verdadeiro amor mas se contentam em passar todos os finais de semana enchendo a cara na balada e postando fotos bêbadas no facebook, está cheio de homens que dizem que quando encontrarem a mulher certa irão se casar e quando a encontram apenas deixam passar por suas vidas. Seres que se alimentam de fictícios amores platônicos e verborragicamente cospem advérbios de dúvida em cada parágrafo da vida. Pessoas que no fim da existência, já em cadeiras de balanço imóveis e enferrujadas, relembram o passado através do que nunca passou: por meio dos insípidos beijos nunca beijados, do inodoro cheiro dos paraísos nunca visitados e pior, do peso indigerível das tantas palavras engolidas – verdades que facilmente caberiam em pequenos dizeres e teriam sido capazes de ensolarar multidões, mas nunca foram ditas.
Por isso, não subestime o correr do tempo e tenha plena certeza que os ponteiros nunca vão parar para esperar sua indecisão sobre dar o primeiro passo rumo à realização. Deixe para sonhar com coisas realmente impossíveis de serem concretizadas fora do fantástico mundo do sono. Prefira sempre o risco eminente de um tapa na cara do que a insuportável certeza de a mulher que deseja nunca invadirá sua casa faminta pelos seus lábios medrosos.
Ouse mil vezes mais e quando uma mulher linda atravessar a faixa de pedestres bem em frente ao seu carro, não se contente apenas com a emissão de olhares pseudo sedutores e com a criação de fantasias mentais, nas quais você e ela caminham numa noite de primavera em uma rua que cheira damas da noite – use a criatividade para outros fins. Seja homem, saia do carro agora, enfrente as buzinas e drible os fiscais de trânsito, diga a ela que quer conhecê-la e corra o risco bom dela aceitar sua proposta e torná-la mais indecente do que jamais sonhou.
E se der errado? O máximo que pode acontecer é você tomar uma joelhada nos testículos, ter seu veículo guinchado, ser vaiado por todos os motoristas do farol após seu falho ato Don Juanista e ainda ter essa cena lastimável vista no YouTube por milhões de pessoas, mas e daí? Vai dizer que prefere voltar pra casa apenas com a lembrança de algo que poderia ter feito?
Precisamos nos permitir viver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário