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domingo, 24 de junho de 2012

' Proibido ser morno '

' Um café e um amor, quentes por favor.'

Hoje eu acordei com tantas vontades, cheia de anseios e desejos. Ainda na cama desejei ser a Julieta e escrever uma carta para beeem longe, que chegasse até o Romeu, só pelo prazer de esperar ansiosamente por uma resposta construída com palavras imprevisíveis.Abri os olhos com a ânsia gritante de recrutar amigos, dos mais sem vergonha, e fazer com eles meu primeiro salto de pára-quedas, participar de uma serenata para alguém, fazer um luau e uma viagem inesquecível sem destino, apenas com uma mochila nas costas. Pensando em tudo isso, me veio um sorriso que fui incapaz de deixá-lo para mais tarde.
Mas também, despertei arrependida pelas portas na cara que dei de algumas pessoas, por alguns sorrisos que não dei, por não falar eu te amo quando queria e nem ligar e dizer que foi só para ouvir a voz por puro orgulho. Acordei pensando que o mundo atropelou tanta gentileza que havia no passado.
Hoje chorei por ter perdido os versos que a vida me obrigou a esquecer antes mesmo que eu pudesse escrevê-los em algum guardanapo de boteco, SMS etílico ou no coração alado de algum ex namorado que por ao menos uma noite foi só meu. Hoje eu sorri quando me olhei no espelho e vi um solitário fio branco em meus cabelos negros, a prova irrefutável de que estou envelhecendo, aprendendo a perder tudo que tenho para quem sabe um dia, poder ensinar algo sobre ganhar o que me falta.
Hoje comemorei com fogos de artifício e champagne as minhas incontáveis derrotas, as inúmeras vezes que passei longe do pódio e nem ao menos pude estimar o peso daquele troféu. Aplaudi esses tantos tombos com a certeza de que foram eles que me lecionaram o sabor perigoso da vitória e todo o risco presente nas medalhas de ouro que carregamos no peito, como se vestíssemos uma armadura dourada de orgulho.
Hoje cantei Sinatra no banho e sem me importar com meu desafino fiz do xampu microfone, passando o condicionador comecei a cantar Guns'n Roses lembrando da época de 1998 quando a música Patience explodiu nas rádios. Mas cantei de tal forma, como se de dentro do meu box de vidro transparente eu pudesse enxergar o mundo todo do meu jeito,“My Way”, feito de muita poesia e folhas em branco, prontas para receber a tinta fluorescente dos meus insaciáveis desejos.
Hoje acordei fervendo, com febre de viver e uma incendiária certeza: para abrir os olhos de verdade, não é permitido ser morno. Não importa com qual pé pisará primeiro quando resolver sair da cama e do coma, apenas pise forte e mantenha seus passos com fome, o mundo está ali para que você o devore já! Não espere tanta coisa esfriar.
Ser morno é caminhar em cima do muro, é esperar o tempo passar sem passar pelo tempo. Ser morno é deixá-lo segurar a sua cintura com uma mão frouxa, é ter e se contentar com aquele sexo amorzinho todos os dias, sem ao menos se entregar de verdade, Ser morno é desejar coisas medianas e saciar a vontade com coisas menores ainda.Ser morno é fazer striptease pela metade, penetrar pela metade e amar pela metade. Ser morno é estar sempre meia-bomba e não deixar nenhum estilhaço cravado no mundo. Por mais masoquista que pareça, prefira aquilo que queima e inevitavelmente marca – essas são as coisas que, no futuro, te farão olhar pra trás e constatar que a vida valeu a pena.


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