Eu evito essa definição porque nossa reação imediata é tentar viver
de acordo com modelos e ideais. Mesmo quando são boas referências, essa
tendência de comparar o que surge com um modelo de sucesso só traz
confusão e sofrimento. Por outro lado, não ter referenciais é igualmente
frustrante, especialmente hoje, num momento em que os casais em
evidência não oferecem grandes exemplos do que pode ser um
relacionamento profundo.
Com isso em mente, podemos descrever algumas qualidades possíveis para qualquer casal incorporar em sua própria história, no encaixe que der, do jeito que der tesão para ambos.
Uma dessas qualidades é a generosidade, no espaço ocupado normalmente
pela carência. Em vez de exigir, esperar, cobrar ou pedir (seja no
começo, no meio, no fim ou após o fim da relação), oferecer. Em vez de
olhar como o outro pode nos fazer feliz, descobrir como podemos fazê-lo
feliz e sentir como isso nos deixa muito bem, como isso dá sentido para
nossa vida, dá brilho no olho, energia, potência.
Outra qualidade de um relacionamento exemplar (que inspira outros casais) é a ludicidade,
a capacidade de enxergar todas as coisas como construções, encenações,
sonhos, filmes. Tirar a solidez daquela situação angustiante, se fazer
de palhaço no meio de uma briga seríssima, beijar do nada, sorrir para
os problemas, inventar mitologias, surrealidades próprias, e sempre
lembrar que o casamento, por mais sólido que seja, é apenas uma aura
projetada, um filme que criamos e decidimos seguir vivendo, não uma
realidade imutável.
O outro é sempre livre e mantém uma vida pulsante e misteriosa para além das identidades construídas em sua relação conosco. A mulher é sempre maior que a esposa. O homem pode deixar de ser o marido a qualquer momento.
Perceber isso antes que a identidade se dissolva, antes da crise,
antes do fim, perceber isso durante a encenação é o que confere essa
qualidade lúdica e mágica para a relação se aprofundar e para ambos
sempre se surpreenderem com essa loucura que se apresenta como o
cotidiano natural, essa alucinação que parece muito real, como um jogo
delicioso de criança.
Um terceiro aspecto é a abertura, no sentido de não criar regras e
não se afastar do outro, mesmo quando estamos distantes. Ou seja, manter
o espaço aberto, manter a comunicação mesmo quando dói, mesmo quando
tudo nos leva à defesa, ao fechamento. Isso é crucial e raríssimo nos
casais. Por exemplo, quando surge ciúme, essa aflição atua como um agente infiltrado que joga um contra o outro:
um enxerga o outro como inimigo, como sendo o responsável pelo
problema, pelas emoções, pensamentos e sensações negativas que surgem.
Alguns pensam que comunicação é “DR” (discutir a relação), mas na
maioria dessas conversas só apontamos um para o outro, não para os
verdadeiros obstáculos. Manter a comunicação quando tudo vai mal é saber
ficar junto no meio da dor, da confusão, da incerteza, da insatisfação.
Poucos são os casais que exploram esses terrenos mais escuros. A
maioria espana nessa hora – ou, pior, aguenta encarando tudo como um
peso, não como um desafio.
Quando há abertura, o ciúme não tem paredes para se esconder, então
ambos olham o verdadeiro inimigo: a aflição, o ciúme. E eles se unem
ainda mais para superá-lo. É como detectar um câncer na relação. O que é
melhor: tratar o câncer brigando ou se cuidando? É
assim que poderíamos nos relacionar com todos os obstáculos que surgem
na relação, venha de onde vier, não importa: do banco, da família, da
garagem, da UTI, da pia da cozinha, do homem, da mulher, de um terceiro,
de um quarto… ;-)
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